O celacanto

Da minha antiga paixão pela Zoologia restou a lembrança do bestiário fabuloso que inventei a partir do álbum de figurinhas Mundo Animal.

Naquele tempo de menino, imaginei o elefante-arborícola caçado sem dó pelo leopardo-das-neves, enquanto o boi-almiscarado botava medo no tigre-anão-gigante das Seychelles, animal que só podia ser visto às terças-feiras. O caranguejo-mandarim dominava os manguezais de altitude do Planalto de Pamir; e o papa-rocha-das-Órcades, pequeno roedor introduzido acidentalmente pelos britânicos, devastava os moais da Ilha de Páscoa.

Enfim, cansado de forçar a biologia, a geografia e os hífens, eu jogava damas com meu irmão e sonhava que meu pai era um lobisomem.

Depois eu cresci.

Ou talvez não tenha crescido o suficiente. Ainda ontem me lembrei que fiquei amigo do Renato Dotta porque nós dois éramos as únicas pessoas da rua, talvez do bairro todo, que sabiam que o oricterope, em africâner, se chama Aardvark, e jamais foi um tamanduá. Essa amizade, nascida assim em bases tão sólidas, tem resistido ao tempo e aos longos afastamentos.

Quando finalmente cresci em força de homem, joguei fora a mandíbula de tatu, a dúzia de conchas e o álbum Mundo Animal. Guardei apenas os ossos de sépia nas páginas de Montale e o uróboro que caiu do Zaratustra num meio-dia cheio de luz.

Agora sim eu posso começar.

Em 2001, num alcantil inverossímil no mar da Tasmânia foi encontrado um inseto ainda mais inverossímil, a lagosta-das-árvores.

Lagosta-das-árvore: o menino que inventava bichos gostaria de ser dono desse.

O Dryococelus australis é um bicho-pau gigante, que se junta ao panteão das sobrevivências improváveis onde repousam o tuatara, o pangolim, o ornitorrinco, o náutilo e o límulo.

Outro dia aprendi o nome que se dá às criaturas que, tidas como desaparecidas do planeta, são subitamente redescobertas, para surpresa, desconcerto e cara de bobo dos cientistas. O nome é “táxon-Lázaro”, apelido bárbaro na composição e áspero aos ouvidos.

O táxon-Lázaro, termo que os biólogos propõem em vez de “fóssil vivo” (que deve ser reservado exclusivamente aos defensores das ideias de Olavo de Carvalho), equivale ao que os psicólogos sociais chamam de “efeito Mandela”: a curiosa crença compartilhada de lembrar-se de uma notícia que, na verdade, jamais aconteceu. O nome veio do fato de que muita gente jurava em nome da mãe, do Pai e da luz que alumia, que Nelson Mandela tinha morrido na prisão e pareciam ignorar totalmente a notícia de que ele foi libertado em 1990, ganhou o Nobel da Paz em 1993 e tornou-se presidente da África do Sul de 1994 a 1999.

O bicho-pau gigante Dryococelus australis é um táxon-Lázaro, como também é o celacanto, animal totêmico deste blog, cuja história, embora conhecida, vale a pena contar de novo ao recém-chegados.

Em 1938, a cientista Marjorie Courtenay-Latimer estranhou o cliente de pele azulada num pub em East London, litoral da África do Sul. Embora desaparecido desde o Cretáceo, lá estava ele, enchendo a cara de gim e praguejando contra o rei George. Abordado pela polícia, o cliente mostrou os documentos e confirmou que era um celacanto. Ele foi imediatamente taxidermizado. E essa é toda a história.

O fato é que o celacanto é mais uma vítima do “efeito Mandela”: todos achavam que ele tinha morrido, mas…  Aliás o próprio Nelson Mandela, naquele anno mirabilis de 1938, tinha vinte anos e estava prestes a começar a sua militância política na mesma África do Sul.

Deixemos, por ora os intrincados caminhos da História, a eterna rameira.

Há duas espécies de celacantos. A minha favorita é a Latimeria chalumnae, que é encontrada no Índico e que aparece na gloriosa foto do alto dessa página.

Os celacantos não servem para nada. Não têm nenhuma utilidade comercial. Não são comestíveis nem especialmente bonitos. Vivem em cavernas submarinas profundas, nadam lentamente, crescem lentamente e não têm pressa de transar (a maturidade reprodutiva só vem entre 45 e 60 anos de idade).

Como resultado dessa vidinha low profile bem administrada, eles são longevos e podem chegar aos cem anos. Isso significa que parte da população atual de celacantos era contemporânea daquele que foi reconhecido pela doutora Courtenay-Latimer e do começo da carreira política de Mandela.

No entanto, os celacantos de hoje, cujos bisavós escaparam do mata-mata decorrente do impacto do asteroide Chicxulub agora estão ameaçados pela pesca predatória e correm o risco de se tornarem Lázaros sem Jesus por perto.

Mas por que deveria eu me preocupar com o adeus de uma espécie que, feitas as contas, está fazendo hora extra no planeta há 65 milhões de anos?

É que a extinção me concerne.

Deixe um comentário