
Luciene se virou pra mim e disse que tinha aprendido o que era uma madona. Assim, do nada.
Bestinha arrogante como eu era, devo ter comentado: Só agora você ficou sabendo?
Não. Luciene era meu crush desde os onze anos. Eu não iria dizer isso pra ela.
Acho que foi mais algo como: Você viu as madonas de Rafael?
Quero lembrar Madonna Louise Ciccone ainda não era cantora. Em 1981, madonas eram madonas mesmo, aquelas representações idealizadas da mãe de Jesus. Rafael nunca foi meu pintor favorito (eu gostava do Renascimento hard e sem frivolidades de Piero dela Francesca e Paolo Ucello), mas Rafael pintava madonas famosas, que a Luciene deve ter visto num domingo de tédio.
O problema é que, tantas eras depois, não sei se engatei a conversa fiada sobre Rafael. Considerando que devia ser uma aula de História e que o prof. Hélio me emprestava seus livros, a cena provavelmente foi:
– Eu aprendi ontem o que é uma madona.
– Ah é?
Silêncio e novo mergulho meu no capítulo sobre os primórdios do capitalismo da História da riqueza das nações, de Leo Huberman
É por inépcias desse jaez que eu passei tanto tempo plantando bananeira na Friendzone.
Meses antes, Ana tinha puxado papo para contar que tinha ido ver Xanadu. Quando ela me disse que a personagem de Olivia Newton John era uma musa, o bestinha arrogante que eu era disparou:
– E ela tem oito irmãs e a mãe se chama Mnemósine.
– Você viu o filme também?
– Não, Ana. Isso é mitologia grega.
A conversa parou por aí. Ana era apaixonada por mim e eu poderia muito bem namorar com ela, mas ficamos plantando bananeira na Friendzone.
O que é que nos joga nesse limbo? Certamente a falta de coragem e a esperança equivocada de que os embargos protelatórios serão derrubados por milagre antes da consumação do mundo no Dia do Juízo.
A Friendzone nos torna todos mais estúpidos. Eu voltava com a Márcia de uma pesquisa na biblioteca Mário de Andrade. Estávamos sentados juntos no ônibus. Márcia estava de bom humor e a viagem do centro até o extremo da Zona Leste iria ser demorada. Apareceu então de pé, ao nosso lado, uma mulher grávida. O rapazola de 15 anos que eu era deveria ter tido a gentileza de ceder lugar a alguém mais necessitado, mas eu simplesmente fingi que a mulher não estava lá. Por essa maldade, ainda hei de penar no segundo círculo do Inferno, mas me consola ter a companhia de Francesca de Rimini, que, segundo Dante, ficava empolgada com livros.
Eu poderia e deveria me estender na matéria, pois embaraços ainda maiores passei nos anos do ensino médio, quando resolvi romper o pacto de silêncio da Friendzone e me declarei para a Vera, mas o que consegui foi esgotar em menos de dois anos todo o receituário do ridículo e todos os tons do ciúme, tanto que a crônica miúda do vexame ainda me peja e me pesa.
Como é preciso botar ponto final nesse passeio pela memória, vou para uma recordação mais agradável. No início de 1986, voltava às vezes com a Nádia, então estudante da ECA, no ônibus que nos deixava no terminal do Parque D. Pedro, onde pegávamos a condução para casa. Numa dessas voltas, ela estava contando da alegria que foi ver Luís Carlos Prestes na USP. Embora de esquerda, eu me considerava anarquista e refugava o comunismo e o culto ao Capitão. Consegui controlar minha língua de bestinha arrogante e me sentei ao lado dela, que explicou para uma colega que eu era seu “amigo de solidão”. Pura Friendzone, que não foi rompida nem mesmo com o beijo roubado na plataforma de embarque.
Atravessei o terminal cantarolando Tom Waits (Downtown train) e, a caminho de casa, dominado como sempre pela mania dos símiles literários, defini minha relação com a Nádia como “o vermelho e o preto”, mas no fundo queria que fôssemos como Francesca de Rimini e Paolo Malatesta, mesmo ao risco de parar no Inferno, segundo círculo à esquerda.
Nádia foi a minha última estação na Friendzone. Três meses depois, estaria curado disso para sempre graças a um movimento que pode ter partido de mim ou da Ludmila. Só sei que deu certo.
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